Filha de Che Guevara vê risco de invasão dos EUA contra Cuba


“Sabemos que podem nos atacar a qualquer momento porque são loucos. Esperemos que a loucura não chegue ao extremo e que eles se deem conta do tipo de inimigos que realmente podemos ser. Porque Fidel disse: 'Quando um povo enérgico e viril chora, a injustiça treme'”, disse à Agência Brasil.
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Com 65 anos, Aleida avalia que a maioria do povo cubano segue fiel aos princípios da Revolução de 1959, que instituiu o primeiro Estado de inspiração socialista na América Latina, desafiando a hegemonia dos EUA na região.
Ela também comenta sobre a questão da democracia na ilha; sobre a solidariedade internacional em relação a Cuba e sobre como é ser filha de Che Guerava no país que seu pai ajudou a construir.
Confira a entrevista abaixo:
Agência Brasil: O que trouxe a senhora ao Brasil?
Aleida Guevara: Vim ao 4º encontro do MPA [Movimento dos Pequenos Agricultores] e foi incrivelmente interessante porque ainda há muito a ser resolvido no Brasil, problemas de todos os tipos, mas o principal é a questão da terra. A reforma agrária continua sendo o calcanhar de Aquiles do país. Se não houver uma reforma agrária profunda e real, será muito difícil resolver o problema da alimentação, da soberania alimentar.
E o movimento campesino aqui no Brasil apoia muito Cuba. E o mais bonito para mim é que o campesinato no evento falou sobre socialismo. Veja que interessante. E ainda identificam Cuba como um farol de liberdade e dignidade humanas. E isso é extremamente importante para uma cubana.
Agência Brasil: Pretende ficar mais tempo no Brasil?
Aleida Guevara: Não, eu volto nesta sexta-feira [15] porque tenho muita coisa para fazer e, além disso, Cuba está sob ameaça de ataque, e a pior coisa que poderia me acontecer na vida é meu próprio país ser atacado e eu não estar lá. Isso me deixaria louca. Eu preciso estar lá.
Agência Brasil: Existe um sentimento de que essa invasão pode, de fato, ocorrer? Ou o sentimento é de que os EUA não fariam isso?
Aleida Guevara: Moramos nesse lugar histórico há muitos anos, muito perto do império americano e esse homem [Donald Trump] que está completamente fora de si, totalmente louco.
Você simplesmente não sabe o que pode acontecer. Quando você tem um inimigo, você o analisa, estuda e sabe, mais ou menos, se o que ele está dizendo pode ser verdade ou não. Com esse homem, você não consegue nem avaliar o que ele diz.
Não somos tolos. Sabemos que podem nos atacar a qualquer momento porque são loucos. Esperemos que a loucura não chegue ao extremo e que eles se deem conta do tipo de inimigos que realmente podemos ser. Porque Fidel disse: 'Quando um povo enérgico e viril chora, a injustiça treme'.
Agência Brasil: O bloqueio de mais de seis décadas dos EUA busca levar o povo cubano a se colocar contra o governo. Acha que isso é possível?
Aleida Guevara: Sempre haverá algum idiota que acredita nessa história, mas a maioria da população – felizmente – sabe perfeitamente quem é seu inimigo.
Quando bate aquele cansaço de toda essa situação, acontece de os Estados Unidos dizerem algum absurdo, que provoca uma reação nas pessoas.
Há contrarrevolucionários em Miami, por exemplo, que antes apoiavam a invasão, e agora não apoiam mais porque viram que seus familiares estão sendo prejudicados pelo bloqueio, pela falta de gasolina e medicamentos. Ainda que tenham dinheiro para comprar, não conseguem.
Os Estados Unidos sempre foram promotores da unidade em Cuba devido à sua idiotice como inimigos, à sua falta de inteligência.
Se você tem consciência social e educação, percebe o que pode acontecer ao seu redor. Temos o Haiti ao lado, por exemplo, além de Porto Rico, que é supostamente uma colônia dos Estados Unidos.
Um ciclone passou por lá, e o que Trump fez? Jogou papel higiênico neles [Em 2017, o presidente Donald Trump visitou Porto Rico, após um desastre natural, e arremessou rolos de papel em um centro de distribuição de ajuda]. E deixou 80% de Porto Rico sem eletricidade.
Cuba sabe de tudo isso, o povo cubano tem um nível significativo de cultura. José Martí [líder da independência de Cuba] dizia que somente um povo culto pode ser verdadeiramente livre, porque não pode ser facilmente manipulado.
A França tem vários territórios que chamam de “ultramarinos”, que são suas colônias. Eles não buscam a independência porque têm medo de passar com eles o que passou com o Haiti, que foi o primeiro país livre da América Latina e sofreu um duro cerco e bloqueio das potências europeias por sua ousadia.
O mesmo ocorre com Cuba. O bloqueio é para que nenhum outro país se atreva a virar socialista. Para que sirva de exemplo para as demais nações.
Agência Brasil: Como está a situação da ilha nesse momento?
Aleida Guevara: Os problemas econômicos que enfrentamos são muito sérios. Quando se bloqueia uma ilha e se impede a entrada de petróleo, tudo para. No momento, não temos apagões, mas sim fornecimento intermitente de energia, horas de luz. E, nas províncias, há cidades que ficaram 72 horas sem eletricidade. E me diga, como se conserva comida nessa situação?
Agência Brasil: Como a senhora avalia a solidariedade internacional em relação a Cuba?
Aleida Guevara: Foi imediata. A ideia de que semeamos solidariedade é verdadeira. Tudo começou com a Escola Latino-Americana de Medicina [Elam], onde demos a muitos latino-americanos a oportunidade de se tornarem médicos em Cuba gratuitamente.
Isso já foi significativo porque as famílias desses jovens e os próprios jovens reagiram imediatamente em apoio a Cuba. Acabei de receber duas malas de medicamentos dos estudantes uruguaios formados na Elam.
Aqui em Uberlândia [MG], por exemplo, dois sindicatos se uniram e me enviaram inúmeras malas de medicamentos.
Agência Brasil: Esse é um apoio da sociedade civil. Como tem sido o apoio e solidariedade dos governos?
Aleida Guevara: Governos são mais complicados. Eles vêm e vão, mas o povo sempre é o mesmo. E o que nos interessa é a solidariedade do povo. Governos têm suas limitações. Você sabe que a política internacional se move de acordo com o que lhe convém. É triste, mas é assim que funciona.
Na América Latina, o governo mexicano se destaca. A presidente [Claudia Sheinbaum] tem dignidade, e diz calmamente: 'Vou continuar ajudando o povo cubano'. Ela já enviou vários navios com alimentos.
Há os russos que, apesar da guerra com a Ucrânia e da pressão europeia, nos enviaram um navio com petróleo, e outro carregamento certamente está a caminho. Na Itália, por exemplo, várias brigadas de solidariedade foram organizadas, trazendo-nos o que podiam: remédios, suprimentos para hospitais e comida. Devemos aos chineses, e eles perdoaram a dívida. Existe solidariedade.
Agência Brasil: Aqui no Brasil, Cuba costuma ser estigmatizada por parte da mídia e de partidos que acusam o país de não ser uma democracia. Como a senhora responde a esse tipo de crítica?
Aleida Guevara: Democracia vem do grego e significa poder do povo. Agora me diga, em que país que você conhece existe poder do povo? Que quando o povo decide algo, o governo o executa. Isso é democracia. E onde ela está?
Onde está esse poder do povo? Significa também igualdade de condições para ser julgado, por exemplo, não importa quanto dinheiro você tenha no banco. Onde está essa democracia? Onde ela se concretiza?
Quando o povo brasileiro entender o que é democracia de verdade, perceberá que, em Cuba, existe uma democracia verdadeira. A mais popular e a mais aberta que existe, porque o povo governa.
Agência Brasil: Como foi o contato da senhora com seu pai, Che Guevara?
Aleida Guevara: Tive pouco contato com meu pai, mas tenho uma mãe espetacular [Aleida March, viúva de Che] que me ensinou a amá-lo, conhecê-lo e admirá-lo. Se hoje sou uma mulher socialmente útil, é graças à educação que recebi dela.
Minha mãe é de origem camponesa com uma formação acadêmica extraordinária. Ela foi combatente da resistência na clandestinidade e, mais tarde, do Exército rebelde. Estudou história, além da formação em pedagogia que já possuía e é cubana de corpo e alma.
Ela ficou sozinha muito cedo com quatro filhos pequenos. Quando um camarada morre, como meu pai, os outros camaradas tentam aliviar a pressão com ajuda material. Mas minha mãe não permitia que recebêssemos nada a mais que as outras famílias recebiam, devido à quantidade de suprimentos que existia em Cuba.
Isso porque ela seguiu as instruções do meu pai. Nós comíamos o que todos em Cuba comiam. Não tínhamos privilégios. Mas fomos privilegiados por ter o carinho e a admiração do povo cubano, por receber esse calor humano.
Nesse aspecto, você percebe que meu pai ainda está muito vivo para o povo, eles o mantêm muito presente, e isso, para uma filha, é extraordinário. Nós não desfrutamos dele, mas, mesmo assim, ele está lá. A presença dele é muito forte em Cuba, principalmente nas crianças.





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