'Esse espaço é nosso por direito', diz diretora que dedica metade da vida ao sistema prisional do Amapá sobre a mulher na segurança pública
Com 23 anos de farda, a policial penal Francineuda Abílio da Paixão lidera a Penitenciária Feminina do Iapen, unindo o rigor técnico de uma veterana do grupo tático à sensibilidade de quem entende os desafios da jornada dupla.
Aos 52 anos, a policial penal Francineuda Abílio da Paixão atua na direção da Penitenciária Feminina do Iapen Março é, tradicionalmente, um mês de reflexões sobre conquistas e espaços. Na Segurança Pública do Amapá, essas conquistas ganham rosto, voz e a marca da resiliência. Aos 52 anos, a policial penal Francineuda Abílio da Paixão não é apenas a diretora da Penitenciária Feminina, vinculada ao Instituto de Administração Penitenciária (Iapen), mas a personificação de uma geração de mulheres que precisou provar, no pátio e na teoria, que a força e a empatia podem e devem caminhar juntas.
"Trabalhar com o que você gosta é gratificante, mas exige renúncias. Como mulher, sabemos o que deixamos para trás ao sair de casa, do cuidado com o filho, com a casa e com a família. Quando retornamos, as coisas continuam lá, esperando por nós. É um desafio diário, mas é a minha missão", revela Francineuda.
A servidora ingressou no serviço público em 2003, quando a carreira ainda era denominada como agente penitenciário. Durante quase duas décadas, sua rotina foi pautada pelo rigor do Grupo Tático Prisional (GTP), onde foi, por muito tempo, a única mulher da equipe. Essa base operacional moldou sua liderança para o desafio iniciado em agosto de 2024, de gerir administrativamente uma unidade que abriga o público feminino privado de liberdade.

"Damos conta do recado. Trabalhamos em parceria com os homens, mas as mulheres têm uma capacidade única de mediação. O que digo para quem está começando ou sonha com essa carreira é simples: não desanimem com o machismo ou com as dificuldades. Elas nos moldam. Ocupem seus espaços, porque este lugar é de vocês por direito", complementa.
Formada em Geografia pela Universidade Federal do Amapá, Francineuda não planejava ser policial. No entanto, ao ingressar na carreira, descobriu uma paixão inesperada pelo operacional. Hoje, ela administra a Penitenciária Feminina com o apoio das demais policiais penais, que compõem 90% do quadro de servidoras.
Trajetórias de força e resiliência como de Francineuda são as que transformam a Segurança Pública do estado. Sua história é um reflexo da evolução institucional promovida pelo Governo do Amapá e do espaço que as mulheres vêm conquistando em ambientes historicamente masculinizados. A diretora lembra que o respeito que conquistou não veio de privilégios, mas de igualdade no esforço.
"Eu paguei flexão, fiz barra, corri e flutuei como qualquer colega. Não houve 'mão na cabeça'. Se uma mulher se forma em um curso operacional, ela passou pelas mesmas dores que os homens. Ela merece estar ali", enfatiza.

Legado que atravessa gerações
A trajetória de Francineuda é alicerçada na figura de outra mulher forte: sua mãe, que criou os filhos sozinha e ensinou o valor da honestidade e do estudo. Hoje, esse exemplo se multiplica. Seu filho, que chegou em sua vida quando ela já era policial, estuda em São Paulo, orgulhoso da mãe que o criou entre plantões e missões. O impacto de sua farda também inspirou os sobrinhos: um já é policial penal e a outra está em processo de ingresso na Polícia Militar.
"Eles dizem que sou o maior exemplo deles. Isso é o que mais me gratifica, saber que a minha caminhada abriu caminhos para os meus", finaliza.





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